É uma loucura os Simpsons fazerem sucesso há 19 anos

Ele estava presente quando os Simpsons nasceram, há 21 anos. Em 1987, David Silverman foi convidado para criar sete curtas de animação de um minuto e meio para o programa de entrevistas da atriz e comediante Tracy Ullman. Um cartunista estabelecido em Los Angeles, chamado Matt Groening, tinha tido uma idéia para satirizar as famílias perfeitinhas da TV apontando todos os defeitos de uma sociedade que se entregava mais e mais ao consumismo inconseqüente. As estrelas dos curtas seriam Homer, Marge, Lisa, Maggie – nomes que o cartunista Matt Groening pegou emprestado, sem cerimônias, de seus pais e irmãs – e o diabinho Bart Simpson, o alter-ego de Matt. Silverman, de 50 anos, é tido como o criador do jeito correto de desenhar a família Simpson e dirigiu o primeiro episódio, com meia hora de duração, que foi ao ar no natal de 1989 – hoje, já são os 413 episódios. Ele, que já trabalhou na Pixar (criadora de Toy Story e Ratatouille e na DreamWorks (Shrek e Fuga das Galinhas), voltou ao time de Matt Groening só para dirigir o filme dos Simpsons, que acaba de ser lançado em DVD. Leia entrevista que ele concedeu a ÉPOCA.

ÉPOCA – Quanto tempo vocês passaram pensando em fazer um filme de Os Simpsons?
David Silverman – Em 2001, quando trabalhava para a Pixar [David Silverman co-dirigiu o filme Monstros S/A, recebia notícias de que o filme estava sendo escrito. Bom, essa foi uma das razões porque eu deixei e Pixar em 2001 e voltei para a Fox. Eu queria ficar na Pixar, mas Matt Groening [criador de Os Simpsons] me ligou. Eu estava em Los Angeles e encontrei Matt numa festa. Vi meus amigos que não via há muito tempo. Sentia falta daquela família. Disse a ele: “só volto se puder dirigir o filme”. Ele respondeu positivamente. Enquanto fazíamos o filme, fiz os quatro ou cinco últimos episódios de Halloween. E foi ali que testei o que gostaria de usar no filme. Foi um campo de testes para muitas idéias e técnicas.

ÉPOCA – Os primeiros curtas dos Simpsons, em 1987, tinham um tipo de animação que lembrava os desenhos clássicos da década de 1950, de artistas como Chuck Jones. Havia mais liberdade nos traços. Essa estética só durou até a segunda temporada. Você concorda que, desde então, o desenho ficou mais comportado?
Silverman – Os curtas do programa de TV Tracy Ullman [que deram origem ao seriado Os Simpsons foram feitos só por mim e [o animador e diretor] Wes Archer. Tomamos a liberdade de fazer algumas coisas bem loucas. E continuamos com isso na primeira e na segunda temporadas. Existia uma coisa no jeito como eu e Wes animávamos os personagens que cativou Matt [Groening]. Mas descobrimos que seria difícil explicar isso para as outras pessoas uma vez que o programa virasse um seriado. Nos episódios que dirigi, entretanto, como quando Homer tem um ataque cardíaco, pude tomar as minhas liberdades (risos).

ÉPOCA – Você animou a seqüência do primeiro episódio da Casa da Árvore do Terror, uma famosa cena em que Homer e Bart recriam o poema “O Corvo” de Edgar Alan Poe. Como foi fazer esse episódio?
Silverman – Tudo depende do que o escritor pede. No Corvo, era tudo fantasia. O roteiro era o poema de Poe, então tudo dependeu do visual para funcionar. No filme, o roteiro era rico, cheio de referências, então fizemos uma animação que ajudasse o texto, e não o contrário.

ÉPOCA – Vocês costumam incluir piadas nos episódios que às vezes só são entendidas em capítulos posteriores. São piadas que ficam na tela durante um ou dois segundos – e isso é uma das principais características de Os Simpsons, algo que criou um culto na internet. Como isso é feito?
Silverman – Normalmente é escrito no roteiro. Mas às vezes temos idéias no storyboard. E conversamos sobre elas e descobrimos se funciona ou não. Também temos idéias, às vezes, durante o processo de animação.

ÉPOCA – Os Simpsons tem uma longa relação com os fóruns de internet. Alguns têm mais de 15 anos de existência. Durante este tempo, esses sites reproduziam qualquer notícia que reacendesse a esperança de ver o filme realizado e especulavam sobre a qualidade do produto final. Você se preocupou em ler os fóruns antes de fazer o filme? Ou depois?
Silverman – Nós não os lemos antes porque estávamos muito ocupados fazendo o filme. Depois, sim, lemos. Existe um grupo chamado Nohomers.com, que é muito crítico, e que costumamos ignorar porque são muito amargos. Depois que o filme saiu, [o produtor-executivo e redator] Al Jean se saiu com essa: “Eu não disse! Eles são muito bons, sempre gostei do nohomers.com!” Ficamos surpresos que um grupo como esse tivesse gostado do filme. Queríamos fazer algo que todo mundo pudesse curtir. Queríamos introduzir os personagens de uma forma que as pessoas que nunca viram o programa fossem capazes de entender. Mas ao mesmo tempo, não queríamos que os fãs se sentissem esquecidos. Depois que estava pronto, a gente pensou: “Não foi tão difícil, só tínhamos um bom script e animamos os personagens!” Está errado. Foi difícil para caramba. A diferença toda é esta: para fazer boa TV, não importa se aquele episódio específico não saiu engraçado. Na outra semana teremos outro. Mas o filme era uma única chance.

ÉPOCA – No filme, há um uso proeminente de 3D, que não tem muito espaço na série.
Silverman – Essa foi uma das coisas que percebi que dava para usar. Os veículos, por exemplo, podiam ser em 3D, para aliviar as dificuldades de desenhar carros. Algumas cenas teriam que usar 3D, como a cena final, com a motocicleta. Então decidi aplicar cenários 3D em outras cenas do filme, porque não queria que os gráficos computadorizados aparecessem de repente, perto do fim. Também achei que poderíamos fazer tomadas com cenários sobrepostos. Eram tomadas feitas em 3D organizadas no computador para dar a dimensão de espaço. Partes diferentes do cenário mudavam de lugar em velocidades diferentes. Quando a câmera se mexe em direção a um personagem, é como cinema de verdade, numa grua. Eu sempre defendi o uso na TV, porque nem é tão caro.

ÉPOCA – Quando você começou a trabalhar com animação, os computadores ainda não trabalhavam bem com gráficos. A geração seguinte nasceu entre programas úteis e fácies de usar. Qualquer cara em casa pode fazer um curta de animação. Você acha que essa facilidade beneficiou a animação ou só gerou porcaria?
Silverman – Um pouco de cada. Tem muita m… na internet. Mas penso: “Ei, se eu tivesse esse tipo de facilidade quando era garoto, podia fazer várias coisas boas rapidamente”. Se eu tivesse essas facilidades, não teria demorado tanto para fazer meu primeiro filme. Em 1978, levei cinco anos para fazer um filme. Se tivesse como pintar os quadros de animação no computador, teria feito o filme em dois anos. (Suspiro). A animação era tão trabalhosa, tão chato! Hoje o difícil é imaginar um desenho. Antes, a parte difícil era pintar as células, filmar as células, voltar, corrigir um erro com mais tinta, filmar de novo… Para o inferno com isso!

ÉPOCA – Você não sente nenhuma nostalgia?
Silverman – Odeio quando os caras dizem que sentem falta dos velhos tempos. Era um trabalho louco, doloroso. Penso assim: “Já tenho a idéia, sei como quero que fique visualmente”. Então, a partir dali, é trabalho de partir madeira. E tem sempre muita madeira para cortar. Falei uma vez com um animador que nasceu em 1890, o cara que desenhou a Betty Boop. Ele trabalhou na Disney em Branca de Neve. Um cara muito bem treinado, trabalhou na Europa. Sabia como desenhar e animar, enquanto os outros animadores da Disney eram ilustradores de jornal ou cartunistas. Uma vez ele disse pra mim: “A máquina de xerox é uma grande invenção! A gente pode aumentar as coisas com muita facilidade. Na Disney, antigamente, a gente tinha que fazer um processo complicadíssimo pra aumentar um desenho mínimo”. Ele morreu aos 100 anos, adorando as invenções que economizavam tempo. Penso da mesma forma.

ÉPOCA – Quais são as responsabilidades do criador da série, Matt Groening, hoje em dia?
Silverman – Ele estava muito envolvido na redação, mais do que está normalmente nos episódios da TV. Há uma coisa ótima sobre ele que é que ele tem idéias específicas que ninguém acredita durante a redação – mas que ficam ótimas.

ÉPOCA – Matt Groening, o criador da série, concedeu entrevistas a diversos veículos. Ele não é tão engraçado falando sozinho.
Silverman – Matt é um redator engraçado. Já o vi dizer coisas muito espirituosas, muito inteligentes. Mas tudo depende. Alguns dos melhores escritores de comédia não sabem fazer performances. Há caras que sabem fazer as duas coisas, que vieram da comédia stand-up. Há redatores em Os Simpsons que só são engraçados no papel. Matt, na sala de criação, pode ser muito engraçado.

ÉPOCA – Ele tem um contrato em que sua assinatura está em todos os desenhos de Os Simpsons. Muito esperto, não?
Silverman – Sim! Como Disney. É ótimo para ele. Deixa eu explicar uma coisa: muitos artistas são passados para trás quando o assunto são direitos autorais. É ótimo ver um artista se dando bem. Eu não criei o conceito de Os Simpsons. Certamente ajudei a refiná-lo, desenhei-os de maneira mais bonita. Mas as pessoas não entendem que criar um conceito que se torna um grande sucesso, ter essa idéia, é uma coisa grande. Todos contribuímos, trabalhamos muito para que a série acontecesse, e às vezes pensamos: “não estou tendo o crédito suficiente” – mas Matt criou um conceito que funcionou. Você pode colocar as mesmas pessoas numa sala, com um conceito diferente, e a coisa pode não funcionar. Nas muitas vezes em que as pessoas me perguntaram se não sinto inveja, respondi: “nunca, porque criar um conceito como os Simpsons é algo grande”.

ÉPOCA – Como você imagina a animação daqui a 20 anos?
Silverman – Suspeito que você vai ver uma dominação ainda maior da computação gráfica. Mas acho que a animação 2D, como Os Simpsons, ainda terá seu espaço. Também tenho a impressão que o animé japonês vai crescer e ser mais popular nos EUA, o que vai ajudará a manter a animação 2D no mercado.

ÉPOCA – Você já veio ao Brasil?
Silverman – Estive no Brasil para o primeiro Animamundi, em 1993. Fui falar sobre os Simpsons, que já era um assunto muito grande. E era 1993! Ali, quando tinha ido ao ar por quatro anos, já parecia muito para mim. Muitos programas não duram quatro anos.

ÉPOCA – Que dirá 19 anos.
Silverman – É uma loucura.

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